Meu filho não gosta de matemática. O que faço?

No meu trabalho como professor de matemática, costumo conversar com alguns pais de alunos que vêm até mim para me relatarem sobre a tarefa de ajudar seus filhos nas tarefas de matemática. E se tem uma coisa que eu ouço muito é pais de adolescentes reclamando do quanto é difícil fazer com que seus filhos gostem de matemática.

Hoje em dia, o trabalho do professor vai muito além de transmitir o conteúdo e avaliar o aluno através de uma prova. Somos responsáveis também por motivar nosso aluno a buscar o conhecimento científico necessário para alcançar seus objetivos de vida e também instigar a curiosidade para que ele possa desenvolver o pensamento científico, crítico e criativo.

Eu confesso para vocês que essa não é uma tarefa nada simples. Nossos adolescentes são bombardeados por um grande volume de informações. No geral, o objetivo maior dessas informações é mantê-los entretidos. Portanto, não vamos pensar que muitos adolescentes preferirão estudar ao invés de gastar o seu tempo vendo memes ou vídeos engraçados no TikTok.

Quando eu sentei para escrever este texto, eu elenquei uma série de problemas que impedem nossos jovens de avançarem nos estudos.

1) Não gostam da matéria porque não aprendem ou não aprendem porque não gostam?

2) Se sentem perdidos na aula e não compreendem o que o professor fala.

3) Não têm acompanhamento em casa

4) Acham que não têm tempo para estudar em casa

5) Os pais não sabem o suficiente para ajudar aos filhos

Vamos tentar dar respostas a estes problemas.

Como faço para que meu filho passe a gostar de matemática?

Eu não tenho uma solução mágica. Mas como professor, posso relatar o que acontece com a maioria dos estudantes e que inclusive, aconteceu comigo assim.

Quando começamos nossa vida escolar, tudo é muito interessante. Minha filha Sofia, que faz o infantil 3, chega pra mim mostrando as continhas de adição que ela sabe fazer.

— Olha, papai, 3 mais 3 é igual a 6.

Para ela, aquilo tudo é muito novo e divertido. Daí vem a pergunta: onde foi que eles deixaram de gostar de matemática? Eu acredito que somos movidos por incentivos e por experiências bem-sucedidas. O problema é que muitas das experiências da vida escolar são mal sucedidas. A matemática é uma ciência exata. Seu algoritmo precisa ser seguido à risca para dar certo e isso parece ser um pouco diferente da forma como o nosso cérebro funciona. É comum o aluno tentar fazer o algoritmo “do seu jeito” e chegar em um resultado errado.

Dependendo da forma como esse erro é interpretado, a vontade de aprender matemática vai diminuindo. E isso é sério. Pois esse processo é repetido à exaustão ao longo de 13 anos da vida escolar de todo mundo.

Na maioria das vezes o erro não é tratado como parte do processo mas serve para julgar pessoas em uma escala de capacidade rotulando aqueles que acertam mais como “mais inteligentes” e aqueles que erram mais como “mais burros”.

Como professor, eu preciso avaliar. Faz parte do trabalho que o sistema exige de mim. No entanto, eu procuro conscientizar meu aluno sobre as mensagens ocultas que uma nota na prova te passa. Se você tira uma nota baixa, não quer dizer que você é burro. Se você tira um 10, não significa que você é especial e que tem um emprego na Nasa esperando por você.

Eu percebo muitos alunos tirarem notas baixas e acreditarem que isso é um rótulo ou uma casta colocada sobre eles e que diz que eles não são capazes e que eles nunca serão ninguém na vida. É preciso inteligência emocional para não acreditar nesses rótulos. Então, resumindo o que eu disse até aqui, o erro faz parte do processo. O problema está em como você interpreta o erro e usa a avaliação como motivação para corrigir o que está errado.

Aprender algo é semelhante a jogar videogame. No videogame, tendemos a gostar mais de um jogo quando a gente sabe o que está fazendo e quando a gente consegue ganhar. A matemática se apresenta muitas vezes como um jogo impossível de ser jogado. E chega uma hora, evidentemente, que desistimos.

Quando você for ajudar seu filho a estudar, recomendo começar com tarefas simples. É preciso que ele tenha a sensação de vitória de um conteúdo aprendido e de uma questão certa. Como professor, uma das maiores alegrias é quando o meu aluno consegue aprender o que eu ensino. Nessa hora, não pense grande. As grandes vitórias são resultado de pequenas vitórias todos os dias.

Meu filho se sente perdido e não entende o que o professor fala

Anteriormente recomendei que começassem os estudos com questões simples. Procure identificar o que ele sabe começando pelas quatro operações, por mais que não seja o que ele esteja vendo na escola. Muitas vezes, o que ele está estudando na escola está a anos-luz do que ele sabe. Ele se sente perdido na aula. É preciso fazer esse nivelamento. Nesse momento, o estudo em casa deve ser como uma ponte que conecta o que ele sabe ao conteúdo que está sendo cobrado na escola.

A importância de não deixar o adolescente sozinho

Muitas vezes eles acabam ganhando nossa confiança. Acreditamos que nosso filho está se tornando adulto, mais responsável e, aos poucos, vamos soltando a mão dele, deixando ele mais livre. Mas quando se trata de estudos, eles precisam de acompanhamento. É fato que o tempo pedagógico, aquele tempo em que o aluno está em aula, sob a orientação do professor, não é suficiente para que ele aprenda muita coisa.

Eu entendo que hoje, com a vida corrida que temos, fica cada vez mais difícil tirar tempo para acompanhar nossos filhos nas tarefas escolares. Mas acredite, eles não conseguem sozinhos. Eu conheço um pai que trabalha 8 horas por dia e quando termina seu expediente, faz curso técnico e quando chega do curso, ainda vai ajudar os filhos na tarefa de casa.

Educar não é fácil. Exige certos sacrifícios. Principalmente hoje em dia, que homens e mulheres estão envolvidos em uma dupla (às vezes tripla) jornada de trabalho.

Meu filho não pega no caderno hora nenhuma em casa

Eu não preciso nem dizer que os pais é que estão no comando. Portanto, se essa decisão de estudar não parte do filho, os pais precisam tomar essa iniciativa.

Para os adolescentes que acham que não têm tempo de estudar em casa pois estão muito ocupados jogando free fire, sugiro que os pais negociem com eles a criação de uma rotina de estudos. Se a partida de free fire for a recompensa por colocar em dias todas as tarefas escolares, não vejo nenhum problema.

Pais que não sabem o suficiente para ajudar os filhos

Talvez agora você esteja pensando: “eu quero ajudar meu filho a ser um estudante melhor. Mas não tenho dinheiro pra pagar um professor particular e nem sou bom(boa) em matemática para dar aulas a ele”.

Se esse é o seu caso, já pensou na possibilidade de aprender junto com ele? Eu acredito que aprender matemática depois de adulto pode ser um desafio prazeroso. Você vai ter contato com aqueles conteúdos que você estudou no ensino fundamental e médio. Talvez você sinta um pouco de dificuldade no começo, mas eu aposto que será mais fácil pra você reaprender aquilo. Quem sabe até haja um sentimento de nostalgia que te remeta à época em que seus professores te ensinavam na escola “b ao quadrado menos 4 a c” ou “o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”. Tem coisas que a gente não esquece.

Não desanime. Esse é um trabalho de longo prazo que dará resultados surpreendentes. Se a base matemática for bem feita, os estudantes conseguem estudar com mais autonomia os conteúdos que virão e até se tornarão estudantes universitários melhores.

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